
Sexta-feira dia 08/05 fui ao shopping com minha irmã para comprar um presente para minha mãe e durante as compras encontrei uma amiga, professora de português, pedagoga, negra. Vou chamá-la aqui de T.
Tenho um amigo que trabalha neste shopping. Ele é jovem, tem 22 anos, estuda e mora sozinho. Foi expulso de casa por ser gay aos 20 anos. A mãe não fala com ele há 2 anos, não recebe suas ligações. Conhecemo-nos quando ele fez um curso na Clinica onde trabalho. Nos demos bem logo de inicio e se me perguntarem se temos muitas afinidades, direi que não. Somos como água e vinho, mas nos amamos. Somos amigos. Sou amiga do namorado dele. Ele faz parte da minha vida e eu faço parte da vida dele. Vou chamá-lo aqui de R.
Eles não se conheciam. Por diversas situações sempre ocorriam desencontros.
Então, como estávamos perto do local onde ele trabalha resolvi passar para dizer um oi. Ele é super alegre, carinhoso. Perguntou-me se poderia lhe oferecer uma carona:
-Meu Love me ligou, vamos sair hoje e estou super atrasado. Sabe como ele é impaciente, você pode me deixar no ponto de ônibus? Respondi que sim e ele foi buscar a mochila.
Minha amiga T perguntou:
-Ele é gay?
-Sim. - respondi.
-Meu Deus!! Mas ele não tem jeito nenhum... E é tão bonito...
Eu ri e brinquei:
-O namorado dele também é muito bonito.
-Este mundo tá perdido mesmo! Sabe, não suporto este tipo de gente, me dá vontade de dizer para ele: seja homem!!
Eu tomei um susto quando ela me disse isto. Nunca imaginei que ela pensasse desta forma, principalmente por vim de uma origem pobre, ser negra e logicamente ter passado por vários tipos de discriminação na vida. Minha irmã me olhou assustada. Tive medo do que poderia resultar do encontro dos dois. Falei:
- Ele é homem. Temos que aceitar as pessoas como elas são.
- Eu não suporto este povo.
Entramos no carro.. Na saída do estacionamento, R. disse:
-Vou ligar pro meu namorado para dizer que estou saindo... Você se importa T? Tem algum problema com isto?
Eu estava vendo tudo pelo retrovisor. Minha amiga passou a mão pelo rosto dele e disse:
-Tenho pena de você!!!
R. respondeu:
-Você tem preconceito!! Li, sua amiga tem preconceito!!
E ele olhou para mim pelo retrovisor. Havia dor em seus olhos. Antiga.
Meus olhos se encherão de lágrimas, fiquei tão desnorteada que pisei no acelerador e quase bati o carro em outro que estava na frente. Falei nervosa:
-Gente, por favor, não vamos brigar.
Fez-se um silêncio tenso. Minha irmã ligou o som. R. brincou comigo e falou D.
(minha sister), pega o volante, Li comprou a carteira!! E eu quero chegar vivo até o ponto de ônibus... hahahahahahaha
Chegamos ao ponto de ônibus, antes de descer, falou:
-Amor, me liga a amanhã...
Fui deixar T. em casa, durante o trajeto, ela tentou agir como se nada tivesse ocorrido.
Minha irmã respondia as perguntas dela e tentava preencher as lacunas... Eu fui monossilábica. Sinceramente, estava atordoada. Não esperava isto dela. Senti-me tão triste, tão magoada e culpada. Uma das pessoas que eu mais amo nesta vida foi ofendida dentro do meu carro por uma pessoa que eu tinha apreço.
No outro dia, liguei para ele e pedi desculpas.
-Você tá louca? Não tem que me pedir desculpas por nada!! Você lê pensamentos agora e conhece o coração das pessoas? Li, já passei por coisas piores... Eu percebi que ela tinha preconceito logo quando eu falei do meu namorado... Poderia ter ignorado ela, ligado pro meu namo e não ter falado nada!! Mas tem algo dentro de mim que não consegue mais ignorar certas situações e que procura um confronto!! Eu queria mandar ela pra puta que pariu por isso aticei um pouquinho... Só teve um problema, eu tenho uma amiga que é manteiga derretida, que é sentimento puro e toma as dores dos outros para si... E aí tive que maneirar por respeito a você.
O preconceito é uma arma que dói, que perfura, que maltrata. Falar sobre este assunto muitas vezes é um discurso vazio. Como T. é professora de português, pedagoga deve falar muito sobre o tema, inclusive até feito seminário com os alunos para debater o assunto. Discurso vazio. Palavras apenas. Conversei com ela depois. Finalmente eu estava calma. Disse que me senti triste, magoada e decepcionada. Falei que ela feriu com sua atitude 3 pessoas. Não tinha este direito. Ela deveria olhar quem ela era de onde vinha e para onde ela queria ir... Ela chorou. Sentiu vergonha.
Às vezes, a pessoa nem sabe que é preconceituosa e, quando se depara com uma situação, percebe que carrega aquilo. Hoje, vemos pessoas que condenam a discriminação, às vezes até trabalham em defesa de minorias, mas que continuam carregando uma grande carga de preconceito dentro de si. As pessoas camuflam suas atitudes, porque expressar o preconceito que ainda sentem não pega bem.
Você já deve ter ouvido alguém dizer “Fulano é preto, mas é extremamente honesto”, “Cicrana é mulher e deficiente, mas realiza um ótimo trabalho”, ou “Beltrano é bicha, mas é uma excelente pessoa.” Percebeu o peso que tem o, mas nessas frases? Passa-se a elogiá-los exageradamente, justamente para esconder a discriminação.
Todos têm preconceitos, em maior ou menor grau (feios, gordos, baixos, baianos, gaúchos, negro, branco, rico, pobre, inteligente, burro, chique, brega, patricinha, mauricinho, nerd...)
Alguns de nós deixamos esse sentimento transbordar para as atitudes, machucando as pessoas, discriminando abertamente ou de forma camuflada. Alguns (poucos) conseguem lidar bem com esse sentimento, aceitando e respeitando ao máximo as diferenças dos outros.
Se eu mudei com esta minha amiga?Só o tempo dirá...
R. não precisa da pena de ninguém. Ele é feliz.Se eu pudesse claro que eu gostaria de apagar de seus olhos aquela dor antiga que as vezes aparece...mas sei que não é possível. Não posso sequer imaginar o que ele pode já ter passado direto ou veladamente por ser quem é, mas independente de qual seja a circunstância, meu amigo é forte, corajoso. Um homem de verdade.